 Introspectivo, metafórico e misterioso: assim pode ser definido o cantor Libra. Um carioca que em seu primeiro trabalho conquistou o apoio de uma grande gravadora, a confiança de grandes músicos e muitos fãs Brasil afora.
Como todo cantor/compositor de músicas inclusas no estilo doom/gótico Libra é solitário e personalístico em suas canções. Após cinco anos de um longo trabalho de estúdio lançou “Até que a Morte Não Separe”, um álbum que deixa nítido e cristalino os anseios que muitos carregam e que são peculiares ao músico. E é assim deixando com que as pessoas incorporem em suas vidas sua arte é que Libra segue trabalhando. Para que você conheça este trabalho e possa entender um pouco de tudo isso - somente do que pode ser revelado - o Metal Clube bateu um papo com o músico, que já tem em seu currículo shows de abertura para nomes como Sisters of Mercy, Nightwish e Kiss. Metal Clube - Primeiramente, obrigada por aceitar falar aos leitores do Metal Clube. Libra - Imagina... É um grande prazer! Metal Clube - Como você começou com a música? Estudar todos os instrumentos de base para uma banda é uma maneira confortável de manter o controle de sua música?
Libra - Comecei aos 4 anos quando ganhei um pavoroso órgão de aniversário dos meus pais. Aprendi a tocar sozinho, mas por volta dos 9, 10 anos meus pais me colocaram para fazer aula de piano, que larguei em menos de dois meses, pois me desinteressei rápido pela metodologia de ensino e pelo lado teórico da coisa. Aos 13, fui “apresentado” formalmente ao Metal e obviamente comprei uma guitarra, era uma Gianini Strato, que aprendi a tocar sozinho seguindo músicas do Slayer, Sepultura, Death, Kreator, etc... Aos 14 reuni minha primeira banda, “The Corpse Grinder”, aos 16 eu tocava em uma banda de Death Metal chamada “The Endoparasites” e toda vez que o baterista saia para ir ao banheiro, para beber alguma coisa ou para descansar, eu corria para a bateria. Sendo assim, aprender guitarra, teclado, baixo e bateria, não foi algo premeditado por mim e sim o curso natural na minha vida. Quando comecei a compor minha primeira demo solo, em 1997, percebi que estaria sendo mais fiel às minhas composições se eu mesmo as gravasse. Depois dessa demo, ainda me sentia limitado no que diz respeito à gravação e a mixagem e por isso mergulhei fundo nisso, me tornando produtor musical e engenheiro de som. Mas, a prova de que, no fundo, o importante pra mim é o resultado e não uma demonstração de habilidades é que, no meu álbum, eu não me limitei aos instrumentos que eu “domino”. Onde eu achava que deveria ter um octeto de cordas eu coloquei um octeto, onde eu achava que deveria ter um coral de meninas eu o coloquei, onde achei que deveria ter uma backing eu coloquei e onde achei que deveria ter uma participação especial eu coloquei.
Metal Clube - Libra, ao voltar de Londres você optou por seguir carreira solo, mesmo já tendo experiências em bandas. Por quê?
Libra - Na verdade, não me limitei a fazer carreira solo. Na época que cheguei de Londres, estava repleto de inspiração, de experiências e imagens pessoais na cabeça. Eu quis apenas registrar essas imagens em forma de música, como em um diário. Mas não me limitei apenas a isso, pois continuei com outras bandas e projetos paralelos. A diferença é que as bandas começavam e acabavam e minha vida continuava. Eu continuava compondo meu diário e um dia vi que aquilo que eu considerava pessoal e quase secreto, tinha potencial para ser trabalhado “externamente”. Isso foi muito difícil de aceitar inicialmente, mas hoje sou (quase) um livro aberto. Metal Clube - Falando ainda das opções de sua carreira, você decidiu usar um nome artístico e não divulga seu nome. Por que você optou por “Libra” que significado há nessa escolha?
Libra - Acho que nosso nome de “batismo” é o nome que nossos pais deram para aquela pessoa que eles gostariam que nós fôssemos, baseado naquilo que eles projetaram para nós. Para mim, foi muito difícil aceitar e admitir que eu era um artista, pois no Brasil nem sempre a carreira artística é encarada como uma escolha profissional e sim com um “hobbie”, o que sempre me encheu de dilemas e questionamentos sobre minhas escolhas. Por isso, quando “acordei” e percebi que eu não teria como fugir daquilo que eu sempre fui achei que deveria marcar isso com um novo “batismo”. Desde criança percebi que quase todas as minhas influências musicais, literárias, visuais e comportamentais, vinham da Inglaterra. Por isso, aos 19 anos fui morar lá e essa foi uma experiência que me transformou por completo. Lá é um lugar onde as pessoas podem ser elas mesmas, se vestir e se expressar livremente sem que ninguém as julgue ou as exclua por isso. Quando voltei para o Brasil, cheio de experiências, influências e inspirações, decidi adotar o nome “Libra” e assim homenagear a moeda inglesa. Metal Clube - Como surgiu a ideia de gravar em português? Por que você não gravou em inglês como a maioria dos artistas do seu estilo?
Libra - Minha decisão de compor e gravar em português foi coerente com a minha decisão de voltar e ficar no Brasil. Acho que, se eu moro em um país, devo fazer o possível para que todas as pessoas desse país entendam o que eu estou dizendo. Como artista, eu quero ser ouvido, por isso, acho um pouco triste falar uma língua o tempo todo, na rua, no telefone, em uma entrevista, e na hora de expressar meus sentimentos, falar outra, que a grande maioria não entende 100%. Metal Clube - Logo que seu álbum foi lançado você conseguiu conquistar muitos fãs pela internet. Qual a importância deste veículo na divulgação do seu trabalho?
Libra - Acho fundamental na divulgação de qualquer coisa hoje em dia. Ninguém mais sobrevive sem usar a Internet como arma de divulgação. Mas tem um lado negro que cresce cada vez mais e que acho um pouco triste. O que um dia foi uma grande rede de informação, está cada vez mais caminhando para uma grande rede de opinião na maioria das vezes mal formada e tendenciosa. Muitas pessoas despreparadas passaram a ser formadores de opinião, a terem voz ativa e a comodidade de estar escondido por traz de um monitor acaba injetando uma dose de “coragem” de falar qualquer coisa sem se preocupar com as consequências. Metal Clube - Há algum tempo você cogitou a ideia de lançar seu álbum, “Até que a Morte não Separe”, em MP3 para facilitar a disseminação do seu trabalho. O que você acha da MP3?
Libra - Tenho uma relação de amor e ódio para com a MP3. O mundo mudou muito e muito rápido e há 10 anos atrás, quase ninguém tinha acesso a Internet, celular, iPod, etc. Isso fazia com que as pessoas dessem mais valor aos seus artistas favoritos, a capa dos CDs e os encartes eram sempre uma experiência a ser desvendada, isso sem falar na qualidade do CD. Hoje, a facilidade de acesso, a quantidade infinita de opções e o aspecto “abstrato” da música não estar em uma mídia física (CD, K7, Vinil), fez com que a arte ficasse muito descartável. E a rapidez com que a MP3 se instaurou prejudicou um pouco certos “valores” que deveriam ter sido considerados (como os direitos autorais, por exemplo). Muitos respondem a isso dizendo que nada mudou, pois com a MP3 o artista acaba sendo mais divulgado e por isso mais gente vai aos shows. Já concordei com isso, mas estou rapidamente mudando de ideia, pois percebo que, cada vez mais, as pessoas se contentam em assistir os shows dos seus artistas favoritos através de uma telinha de Youtube, filmado por um desconhecido no meio da platéia com um celular. As pessoas estão se isolando cada vez mais.
Metal Clube - Mesmo sendo um trabalho de Heavy Metal e ainda mais gótico, sua música tem conquistado espaços não imaginados por outros artistas do estilo. A que você atribui esse sucesso?
Libra - Eu, particularmente, não consigo classificar meu trabalho como “Heavy Metal”. Sei que a maioria das minhas influências vem do Metal (Heavy, Thrash, Death e principalmente Doom e Gótico), mas por também ter muita influência de pop eletrônico dos anos 80 (Depeche Mode, A-Ha, Duran Duran, David Bowie), acabo pairando entre os dois estilos, o que resultou em um som pesado e emocional, porém extremamente limpo e inteligível. Metal Pop talvez? (risos) Não fiz o CD pensando em definir um estilo. Fiz aquilo que me definia melhor e que seria a trilha sonora mais apropriada para aqueles sentimentos que eu queria expressar. Mas fiquei muito feliz e até surpreso quando percebi que tanto o publico do Metal quanto o público Pop aceitou meu trabalho com igual empatia. Metal Clube - Você fez abertura para o Nightwish, um dos maiores ícones do atual cenário heavy mundial. Como foi essa experiência? Quais as expectativas para o show do Sisters of Mercy? (Nota: a entrevista foi feita antes da realização do show)
Libra - Por ter a maioria das minhas influências em bandas como Paradise Losr, My Dying Bride, Type o Negative e por saber que essas bandas também influenciaram o Nightwish, senti que aquele seria “meu publico” principal e estava certo quanto a isso. A aceitação foi incrível e muitos dos fãs que tenho hoje conheceram meu trabalho naquele dia. Quanto ao Sisters of Mercy, sou duplamente influenciado por eles, pois gosto muito da banda em si e minhas bandas favoritas também são influenciadas por eles. Por isso, certamente será mais um evento histórico na minha carreira. Metal Clube - Você testemunhou no Orkut afirmando que o convite para abrir o show do Kiss veio no desespero dos produtores. Como foi tudo, já que o convite veio no dia do show? Mesmo gostando de Kiss você teve receio em relação ao público da banda?
Libra - Me parece, que no contrato do Kiss, as produções locais deveriam colocar uma banda de abertura para tocar, porém, a produção do Rio não havia feito isso (pausa) "parece" que acharam que isso era algo opcional... (pausa) Quando o empresário do Kiss soube disso, na manhã do show do Rio, ele (o empresário) disse que era obrigatório ter abertura e por isso eles deveriam "se virar". Um dos encarregados de achar uma banda é amigo da Fifi (minha baixista) e, sabendo que temos nosso próprio equipamento, o que era obrigatório já que não daria tempo para banda nenhuma alugar nada, e sabendo gostamos muito do KISS, desde criança, ligou para ela fazendo o convite "desesperado" para tocarmos absolutamente de graça! Tivemos menos de duas horas para reunir a banda, produção, técnicos e todo o equipamento que deu tempo, e colocar tudo em uma van alugada. Não tivemos passagem de som, nosso técnico de P.A. ficou preso no trânsito e só chegou lá (local do show) na terceira música. A produção, que havia garantido que haveria um técnico deles na mesa de som até que nosso técnico chegasse, não cumpriu sua promessa, pois, como muitos perceberam, entramos no palco com o P.A. quase sem som nenhum… e nos deram uma quantidade extremamente limitada de canais e efeitos. Mas nada disso importa, pois, mesmo com muitas coisas dando errado - e sabíamos que isso fatalmente aconteceria, sabíamos também que dividir o palco com o KISS é uma oportunidade imperdível. E realmente foi incrível! Recebi centenas de recados e e-mails depois do show, nos parabenizando e reconhecendo a nossa coragem em aceitar tamanho desafio. Agora fazemos parte de uma seleta elite de artistas que em algum momento de suas carreiras tocaram com a maior banda de Hard Rock do mundo. Accept, AC/DC. Aerosmith, Alice In Chains, Anthrax, Black Sabbath, Bon Jovi, Danger Danger, David Lee Roth, Dokken, Fleetwood Mac, Guns N' Roses, Halloween, Iron Maiden, Judas Priest,Manowar, Megadeth, Mötley Crüe, Queensryche, Rammstein, Rush, Scorpions, Slayer, Suicidal Tendencies, Uriah Heep, W.A.S.P., Winger e agora Libra.
(Nota: o cantor esqueceu-se de citar o Dr.Sin, que este ano fez uma abertura memorável para o show da turma de Gene Simons em São Paulo.) Metal Clube - Como alguns outros artistas nacionais, você tem mantido um contato restrito com seus fãs, através do Orkut, MySpace e principalmente auxiliando (quando possível) as meninas do site Libra Fans. No que esta postura tem ajudado em sua carreira, sua música?
Libra - Demorei muito para “aceitar” e “absorver” a Internet na minha vida artística. Mas agora percebo que, um artista novo não sobreviverá mais sem isso. Gosto de ter contato com os fãs e demonstrar meu carinho por aqueles que encontraram algo que procuravam nas minhas músicas, mas, quanto à parte impessoal e “maquinal” de atualizações de sites - aceitar pessoas no MySpace, Youtube, Orkut, etc - , sinceramente espero que um dia alguém possa tomar as rédeas disso para mim, pois acho muito desgastante e me toma um tempo desnecessário que eu poderia reverter em músicas, letras ou algo do tipo.  Metal Clube - Em seu álbum de estreia o cantor Aaron Stainthorpe (My Dying Bride) faz uma participação especial. Você já deve estar cansado de falar sobre isso, mas como é poder contar com um dos seus ídolos em seu trabalho? Como você recebeu o “sim” dele?
Libra - Mandei um e-mail para o escritório que empresaria o My Dying Bride, com uma mp3 da música explicando que seria uma honra ter a participação do Aaron no meu CD, já que ele é, e sempre foi, uma das minhas maiores influências. O mais surreal foi que, ele mesmo me respondeu no dia seguinte dizendo que havia adorado a música e que faria com todo o prazer. Passamos a nos corresponder quase diariamente e ele compôs e narrou um poema inspirado na letra que escrevi. Hoje mantemos contato por e-mail, recentemente mandei para ele um “kit” com CD e camisa, e ele me mandou o último CD do My Dying Bride.
Metal Clube - Há algo em sua música que as pessoas não têm percebido?
Libra - Minhas músicas, letras, clipes e as fotos da capa do CD, são recheadas de metáforas e significados pessoais escondidos, mas costumo dizer que prefiro não revelá-los para que cada um possa ter suas próprias interpretações baseadas em suas experiências pessoais. Se eu revelar meus motivos e significados vou privar os outros de incorporarem minha arte em suas vidas e suas histórias pessoais. Metal Clube - Em seus shows solos você já tem tocado “Veneno”, possível faixa do próximo álbum. A quantas andam a produção e gravação deste novo disco? Alguma novidade próxima? Previsões?
Libra - Já tenho umas cinco ou seis músicas compostas para o próximo CD, mas a data de produção disso será determinada pela minha gravadora. Por mim, prefiro esperar e passar os próximos meses me dedicando ao show e a turnê antes de embarcar em outra produção de um álbum. Me entrego, me dedico às gravações e a mixagem mais do que qualquer outro artista que conheça e não sinto que me recuperei dos 5 anos em que produzi e gravei “Até que a morte não separe”. Por isso, acho que só devo entrar em estúdio novamente daqui há uns 10 ou 12 meses. Metal Clube - Esse próximo álbum terá a participação dos músicos de sua banda ao vivo ou não? Por quê?
Libra - Ainda não decidi como isso será exatamente. Mas, se fosse fazer o álbum hoje, com certeza gravaria algumas músicas com eles. Nunca vou deixar de fazer meu álbum como fiz o primeiro - gravando bateria, baixo e guitarras - , pois aquela proposta foi o que me moveu a fazê-lo e foi daquela maneira que conquistei o que conquistei, mas hoje eles também fazem parte ativa do projeto, e da minha vida, e merecem, de alguma maneira fazer parte do CD. Metal Clube - Libra, obrigada pela entrevista. Use o último espaço para mandar um recado a seus fãs e nossos leitores.
Libra - Espero do fundo do meu coração, que todo o trabalho e dedicação que depositei em “Até Que A Morte Não Separe”, possa servir como trilha sonora para a história de todos aqueles que se dispuserem a perder uma hora de suas vidas. Que sirva como acalanto em uma noite de insônia e principalmente, sirva para mostrar para todos aqueles que se sentem solitários no meio de uma multidão, que vocês não estão sozinhos. Vejo vocês na estrada. Saudações, Libra. Site Oficial: www.libra.art.br
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