Não, não estamos afirmando que muitas destas coisas não aconteçam hoje em dia, o que mudou mesmo foi o comportamento dos “headbangers”, “metalheads”, “metaleiros” ou como preferirem.
O aspirante a musicista hoje é um grande entendedor de técnicas musicais, ele critica, muitas vezes deprecia o trabalho de profissionais, na maioria das vezes, muito capacitados de maneira infundada e sem argumentação, talvez pelo simples prazer de dizer que “fulano” ou “beltrano” é incompetente, ou não é tão bom quanto o “sicrano”. Não estamos afirmando que não se pode fazer críticas, nós fazemos isso aqui no Metal Clube o tempo todo, o problema é a forma como estas críticas são feitas.
Na quarta década de vida do Metal, todo mundo entende de tudo, a guitarra deixou de ser um instrumento estudado pela maioria e tocado, verdadeiramente, por poucos para ter muitos estudantes cheios de técnicas, feeling, velocidade, etc, eles são os tais “conhecedores mestres”. O ser guitarrista tornou-se chacota, pois ‘o cara sempre é bom, mas pior que “fulano”, pelos motivos X e Y’, nenhum pouco relevantes.
O baixo deixou de ser parte da cozinha da música para ser a parte dispensada, não ouvida, sem técnica, peso ou velocidade. O baixista deixou de ser tímido e ‘esquisitão’, agora é um guitarrista que não deu certo.
A bateria agora só importa pelo tamanho, quanto mais peças melhor, não importa se serão usadas - alguns fãs nem conseguem distinguir suas sonoridades - mas sua imponência é necessária. O ser baterista agora é batuqueiro que só é bom se for ‘no bumbo duplo’, porque é mais difícil tocar assim.
E o vocalista? Ah, o pobre vocalista! Hoje ele é um cara que só usa a voz mal impostada, canta desafinadamente todo o tempo e se não alcança determinados agudos não é bom mesmo. Virou lenda o período em que além da guitarra, uma voz harmoniosa era a identidade das bandas, hoje todos têm que cantar em um determinado padrão “sustenido”, há uma busca incessante por uma perfeição humanamente/biologicamente impossível e tudo fora deste padrão é péssimo, inaudível.
Pareceu radical, mas é assim que os músicos são cobrados hoje em dia. Na verdade essa é uma parte da cobrança atual. Como bem disse Rafael Bittencourt (Angra) em entrevista ao Metal Clube ano passado, a outra parte da cobrança vem do período no qual vivemos, onde “o fã está mais interessado em saber o que o artista faz, o que ele come, a que horas faz isto, aquilo e com quem do que em ouvir música”. Isso mesmo o Metal virou muitas coisas, dentre elas uma grande roda de fofocas.
Tomando o próprio Angra como exemplo, quem tem algum tempo de vivência no cenário vai conseguir refletir e se lembrar que há alguns anos a banda era sinônimo de competência e talentos somados em uma música para orgulhar todos os brasileiros. Hoje, fazendo o mesmo trabalho, a banda é tida como competente, mas têm que viver sob a sombra de seus, também talentosos, ex-membros, nunca estando tão boa quanto na época do “Holy Land”. Não dá pra discutir a qualidade deste trabalho, mas quantos são os fãs que viveram esta época, a “áurea”, acompanhando o Angra e fazem esta afirmação, sem considerar pormenores plausíveis, como os trabalhos Rebirth e Temple of Shadows? – Só considerando o que for posterior.
Cobranças, principalmente em bandas de ‘nome’ e com troca de formações são comuns, mas o que acontece atualmente passa o limite da razão musical, os fãs permanecem fãs para depreciar novos membros. Vale lembrar que esta depreciação é igualmente levada às novas bandas de membros desertores e para os projetos paralelos. É como disse o baterista do Karma e Bittencourt Project, Marcell Cardoso, em entrevista ao Metal Clube em março deste ano: “o cara “metaleiro” tem que tirar esse troço de que o artista só pode tocar em uma banda”, naquela banda. O talento devia ser entendido, assim como o apoio.
Seguindo este pensamento, ainda existe aquele fã que não gosta de bandas locais. Vamos explicar melhor utilizando um exemplo dado pelo vocalista do Revolution Renaissance, Gus Monsanto, “a galera abre um exemplar da Rockhard, por exemplo, e se existe uma foto de uma banda com o visual meio escroto falam: ‘deve ser francesa essa banda’”. O exemplo dado por Gus é bem comum na França, cenário que ele conhece bem, mas o cantor acredita que está é uma realidade muito peculiar aos povos de cultura latina, como a do Brasil, França, Espanha, Itália, etc.
Este tipo de reação é muito mais comum do que você pensa, é um estereotipo já absorvido pelo público. Exemplos de que este pensamento está bem vivo são turnês, com um público bem pequeno, “Metal Cristimas” das bandas Andre Matos e Hangar, o Via Funchal longe de sua lotação na turnê que une “Sepultura e Angra” e o fracasso de público em festivais, como o já extinto BMU (Brasil Metal Union). Não há alguém que assuma, mas o pensamento que paira no ar é: “é mediano ou ruim, é nosso”. Será mesmo? Toda essa “desconfiança” gera uma enorme falta de apoio aos artistas, principalmente aos que iniciam carreira neste meio.
A venda de discos caiu drasticamente no país e a culpa não é somente do MP3 e das cópias, como já afirmamos aqui, antigamente se copiava discos em fitas K7. A diferença está na falta de consumidores, são poucas as pessoas que perdem horas e horas nas lojas de disco procurando algo com uma capa legal ou um nome diferente. Poucos são os que adquirem os discos que conhecem e gostam.
Com o advento da internet ficou fácil conhecer novos trabalhos, o MySpace é mesmo uma maravilha, mas o que isso trouxe ao cenário metálico é a praticidade com a qual pode-se descartar um produto. Antigamente ouvia-se um disco inteiro para conhecer a banda, hoje uma música basta. Entretanto, todos nós sabemos que todos os artistas, mesmo os nossos favoritos, produzem músicas que não nos agradam ou até discos inteiros. Nesta levada, muitos perdem a oportunidade de conhecer um novo talento e a maioria dos artistas passa a se preocupar com o visual, pois ele atrai público e é o primeiro meio de contato da internet, deixando de lado a música, que também fica de lado para boa parte dos fãs.
Sem a venda de discos espaços como a Galeria do Rock em São Paulo ficam menores, com poucas lojas do ramo, a frequência piora e claro diminui o número de pontos de encontro. Com poucos discos à venda, as gravadoras e selos independentes perdem força, pode não transparecer, mas muitas turnês, parcerias e grandes shows só se tornaram realidade com o apoio delas ou parcerias entre gravadoras e produtoras. Sem este lucro, por vezes gritante, para as gravadoras falta dinheiro para investir nos novos trabalhos de artistas consagrados, e acaba a oportunidade de financiamento para novos trabalhos, isso inclui sua banda de garagem ou a do seu amigo.
Ainda sem a estatística de vendas dos álbuns, mesmo em versão MP3, fica difícil para as produtoras acertarem o passo e contratar o artista, principalmente estrangeiros que você quer ver na sua cidade. Isso faz decai a qualidade dos shows e as vezes faz com que as produtoras enumerem de uma única vez todos os shows que você quer ver, fazendo com que o fã em um país como o nosso, tenha que optar entre X e Y.
Em contraponto ao passado, o “metaleiro” hoje liga e muito para o título que vai conquistar junto aos amigos, colegas, inimigos e a sociedade no geral. Ele precisar ser do “Metal Melódico”, do “Gótico” ou do “Thrash”, nunca de dois ou três estilos ao mesmo tempo, ele é uma coisa só e não pode ter contato com outras. Por isto, o Angra e o Sepultura não deviam tocar juntos.
Bom, pensamentos pequenos como estes e muitos outros corriqueiros ao nosso dia-a-dia estão matando o estilo musical que tanto gostamos. É dada a hora de o público brasileiro unir forças em prol do próprio cenário para que ele fique forte e atraia os grandes nomes do exterior, para que cada dia mais bandas surjam do tipo exportação. Mas como o cantor e produtor Thiago Bianchi (Shaman e Karma) disse em entrevista ao Metal Clube ano passado, é necessário que haja uma união de verdade e ela começa por você, com você mesmo.
Boa sorte ao Metal Brasileiro! O Metal Clube segue aqui tentando fazer sua parte!