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Falta de ética e/ou talento? Imprimir E-mail
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Por Marcelo F. R. Prudente   
28 de junho de 2008
Com o avanço da tecnologia, tudo em nossas vidas caminha para comodidade e facilidade. Até mesmo as mais simples tarefas possuem uma forma diferente de serem realizadas. Já não precisamos ficar horas e horas na fila do banco pagando contas e/ou tentando transferir uma quantia de dinheiro.
Podemos fazer essas operações em caixas rápidos e internet, gastando poucos minutos, o que nos poupa tempo e paciência. 

Esse avanço atingiu também o mundo da música. Aproveitando a carona da evolução, nasceram (e nascem)  diversos softwares para facilitar a vida do músico, da produção, dos técnicos de som e das gravadoras. A principio todos saem ganhando com esses “novos brinquedos”, mas muitos questionamentos podem aparecer relacionados à seriedade daquele produto (a música). Para entendermos melhor, vamos voltar um pouco no final das décadas de 50 e  60, quando grandes nomes como Jerry Lee Lewis, Elvis Presley, Little Richard, Chuck Berry e Beatles mandavam na cena mundial. Na época, todas as gravações independiam do uso de tecnologia. Tudo era concebido de uma maneira “artesanal”, o foco era dado na capacidade e destreza dos músicos. As bandas iam para o estúdio para compor - as bandas mais organizadas já tinham toda a estrutura de como o disco deveria sair, no caso, a pré produção.  Com toda banda participando do processo criativo, mais o auxílio do produtor, o processo geralmente passava pela composição de um número razoável de canções para figurar no disco, a seleção das que mais se enquadrariam na proposta do álbum e, escolhidas as músicas, todas eram ensaiadas até a exaustão.  Após essa etapa era feita a gravação do disco. Se necessário, dava-se alguns retoques nas composições até que finalmente ficassem perfeitas técnica e musicalmente. Como a tecnologia de hoje ainda era bem distante naquele período, a banda não tinha lá muitas opções para gravar. O jeito era ser extremamente “fera". O artista tocava “de verdade” dentro do estúdio. Não havia nada de gravar instrumentos separados e depois agrupa-los na mixagem. Tudo era gravado na mesma hora. Se o vocalista errava, a fita de rolo era parada, o técnico/engenheiro de som tinha que calcular o momento em que o músico errou e cortar essa parte posteriormente, emendando o resto da fita para ser gravado tudo novamente. Se na segunda tentativa o baterista perdesse o tempo, por exemplo, o mesmo procedimento se repetia até que a música fosse executada com perfeição por todos. A música era, de fato, a concepção de uma obra de arte. Musicalidade, talento, técnica, infinitas horas de estudo, domínio sobre o instrumento e uma boa dose de paciência eram ingredientes básicos para se ter um álbum.

Com a chegada dos anos 70 e 80, novos meios de gravação foram desenvolvidos. Já se podia gravar inúmeros instrumentos, fazer edições e várias texturas de sonoridade em uma mesma música. Os estúdios já dispunham de uma boa estrutura de gravação, mas ainda assim a música era uma forma de arte, onde se conseguia manter vivo aquele “espírito” de outrora. Além disso, os músicos ainda tinham aqueles “ingredientes básicos” já citados. No final dos anos 80 e década de 90, muitos softwares foram desenvolvidos para os segmentos de gravações e edições, sempre tendo como aliado o bom instrumentista. Com a chegada do século XXI, ganhamos “milhares” de novos programas. Os chamados home studios (estúdios com equipamentos básicos de gravação montados em casa) conseguiam ter sua qualidade com o auxílio de softwares como o Pro-Tools (editor de áudio, considerado o Photoshop para músicas) e o Reason (editor de áudio), trazendo tudo o que existe de mais novo no mercado em se tratando de modulações, sonoridade, texturas, ondas sonoras, timbre, efeitos e manipulação de sons.

Todas as ferramentas citadas possibilitam um incrível suporte ao músico, mas o problema reside no fato de não precisar mais de talento para se fazer música/arte (?). Tudo pode ser manipulado em estúdio. De Britney Spears a Latino, dos rappers norte-americanos ao Calypso, tem-se a prova cabal de tal problema: a banalização da arte da música. A discussão é infinita. De um lado, grandes corporações querendo vender o máximo para a "massa”, angariando mais e mais dinheiro, e do outro, instrumentistas sérios sendo boicotados pelas gravadoras. Então, existem algumas perguntas: a arte da música se foi? Tudo é descartável? Consumimos sem ao menos conhecer o produto? Há ética onde milhões e milhões de dólares/reais/euros estão envolvidos? Talento é relevante nos dias atuais? Somos apenas uma peça para manipulação dos mais ricos e poderosos? Música ainda existe?. Vocês, leitores do METALCLUBE, pensem, discutam e reflitam sobre essas questões.
 
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