 Quando se fala no termo “rivalidade”, logo podemos imaginar algumas situações vividas com frequência em nosso cotidiano. Podemos citar alguns confrontos esportivos, duelos entre partidos políticos em busca de votos, canais de TV brigando por maiores audiências e até mesmo as eventuais disputas em família.
Em algumas ocasiões, o ar de rivalidade também atinge o meio musical e trafega nas veias de alguns famosos músicos, tornando a disputa por fãs tão acirrada quanto um clássico entre Brasil e Argentina, no futebol. Também existem aqueles casos em que a tal rivalidade serve mesmo para alavancar o ego de algumas personalidades “magoadas”. Talvez tenha se iniciado assim a verdadeira batalha entre duas potências da música mundial. Megadeth x Metallica.
E tudo começou por volta de 1982, quando Dave Mustaine se candidatou para assumir o posto de guitarrista do Metallica, logo após ler um anúncio no jornal, postado pelo baterista Lars Ulrich. A quem diga que a escolha por Mustaine foi logo imediata, devido a grande e espontânea admiração pelo equipamento e boa criatividade apresentada pelo disposto músico. De fato, não só Lars como também James Hetfield (vocal e guitarra) ficaram abismados naquela ocasião. Com o passar dos tempos as coisas pareciam fluir normalmente e digamos, de forma até satisfatória, devido a boa repercussão obtida por exemplo, na demo “No life’til Leather”. O trabalho hoje pode ser considerado como raridade, sendo dificilmente encontrado inclusive na internet. Uma pena, pois canções como “Motorbreath” e “Seek and Destroy” são verdadeiros petardos nesse material, que conta ao todo com sete faixas.
Metallica – The Four Horsemen
Mesmo com a boa repercussão que não só “No life’til Leather”, mas também de outras demos vinham tendo, a banda acertou com a gravadora Megaforce Records. E se engana quem pensou que o Metallica estaria livre de problemas e, nesse caso, um problemão!!! O comportamento agressivo, o abusivo consumo de drogas e as constantes bebedeiras de Mustaine fizeram com que Lars e Hetfield optassem por demitir o músico mesmo antes da gravação de “Kill’em All” – primeiro trabalho oficial do Metallica. A demissão ocorreu de forma inusitada e surpreendente. A dupla pegou Mustaine em um dos seus constantes momentos de loucura e resolveu colocá-lo, totalmente embriagado, dentro de um ônibus. O destino? Quando Mustaine acordou, além de estar fora do Metallica sem ter sido oficialmente despedido, teria trabalho para voltar, já que estava no extremo oposto de sua casa, nos Estados Unidos.
Com certeza, muitos já ouviram aquele ditado: “Há males quem vêm para o bem”. Pois então, o orgulhoso Mustaine prometeu se vingar e criar uma banda que viesse, no futuro, a superar o poderoso Metallica e deixar de lado as excelentes faixas já gravadas por Lars Ulrich e James Hetfield. Se ele conseguiu se vingar ou não, a resposta não vem agora. O fato é que estava fundada uma das grandes bandas do planeta, o Megadeth.
É difícil, quase impossível, conseguir convencer algum headbanger sobre qual das bandas seria melhor ou mais bem sucedida no meio musical. Ambas viveram bons e maus momentos, ambas passaram por mudanças em sua formação e até mesmo já chegaram a decepcionar boa parte dos fãs com trabalhos pouco atraentes. Para não ser injusto, podemos citar dois álbuns que se enquadram no quesito acima. Do lado do Megadeth, o disco “Risk” até hoje não caiu nas graças dos fãs. Analisando o Metallica, nos lembramos de “St. Anger”, também sem muita repercussão positiva. Por coincidência, os dois trabalhos saíram do estilo que vinha sendo adotado pelas bandas, trazendo aos ouvintes novidades que causaram certa decepção.
Se olharmos pelo lado positivo e compararmos os grandes trabalhos de ambas as bandas, a história fica ainda mais complicada. São inúmeros trabalhos que tiramos o chapéu. O Metallica tem o imortal “Master Of Puppets”? Tudo bem, o Megadeth levantou o mundo com o destruidor “Rust In Peace”. Mustaine foi impecável ao compor “A Tout Le Monde”? Tudo bem, Hetfield é avassalador durante todo o turbinado “Ride the Lightning”, segundo álbum oficial do Metallica.
Muitas vezes essa rivalidade é sustentada por grande parte dos fãs, que no intuito de defender com unhas e dentes seus ídolos, acabam ficando cegos ao acompanhar trabalhos e vitórias de seus, digamos, “inimigos”. É como um fã do futebol de Ronaldinho reconhecer que Zidane é carrasco de nossa seleção em copas do mundo. Ou então reconhecer que Schumacher é melhor que Barrichelo, agora falando da Fórmula 1. Praticamente impossível, a paixão não fala mais alto apenas no mundo futebolístico ou outro categoria esportiva, a música também sofre!
Para piorar, em algumas situações os próprios músicos não se sentem felizes em colocar um ponto final na história. Como exemplo, temos o documentário “Some Kind of Monster” gravado tempos atrás pelo Metallica. O material tinha como intuito mostrar boa parte da carreira da banda e ser um bom registro para seus fãs. Falar do passado nos faz lembrar de várias ocasiões, por isso, um dos personagens que depõe no documentário é ninguém menos que Dave Mustaine. O “renegado” de Lars e Hetfield participou das gravações e, claro, criou mais uma polêmica. O beberrão se diz traído e não admite a forma como as coisas foram expostas no filme. De acordo com Mustaine em uma entrevista para a MTV, ele resolveu colaborar, mas se sentiu apunhalado pelas costas. O líder do Megadeth insiste em dizer que algumas filmagens lançadas em “Some Kind of Monster” não retratam a realidade da conversa com Lars e fazem com que sejam criadas diferentes percepções ao ver o trecho gravado. Outro ponto citado por Mustaine fica por conta de problemas idênticos vividos por James, que no caso foi se recuperar em uma clínica de reabilitação, atrasando o lançamento de “St. Anger”.
Pois bem, a disposição de Mustaine em provocar o Metallica também aparece em cima do palco. Basta voltar ao ano de 2006 para relembrar uma apresentação no Nassau Coliseum, em Nova York. Na ocasião, Mustaine alfinetou seus ex-companheiros de banda ao executar "The Mechanix". O ousado guitarrista começou a faixa de forma desanimada e lenta, mas alguns segundos depois, Mustaine disparou: "É assim que ELES tocam.. NÓS tocamos assim...", enquanto acelerava vigorosamente a música. Só para lembrar, o Metallica também gravou a música, porém com o nome "The Four Horsemen", lançada no disco “Kill’em All”, de 1983. A canção com o Metallica leva letra e alguns arranjos diferentes da versão de Mustaine.
Megadeth - The Mechanix
Vaidades e provocações à parte, de uns anos para cá muita coisa aconteceu e agitou os respectivos fãs. Mustaine por pouco não deixou de lado sua carreira devido a problemas com sua mão. O Metallica apostou no ano de 1999 em gravações com uma orquestra, espantando alguns fãs mais fiéis ao estilo proposto pelo grupo em seus álbuns anteriores. Voltando mais para a atualidade, o Megadeth por pouco não fez tremer Buenos Aires com o show registrado no DVD “That One Night”. Já o Metallica promete um trabalho mais pesado do que nunca. Esse é o lado bom de todo o processo e talvez o mais positivo da ‘disputa’. Os apaixonados por música podem ter certeza que algo no mínimo interessante virá pela frente.
Não há duvidas que estamos falando de grandes e talentosos profissionais, independente de “rinchas” e frustrações que lembram algumas daquelas novelas mexicanas ou apostas que não deram muito certo, afinal, qualquer outra pessoa estaria sujeito a isso. Se confrontos como esse valem a pena, não vem ao caso, mas uma coisa podemos afirmar: definir quem é melhor é como escolher entre Pelé e Maradona. Nunca haverá uma resposta concreta. Cada instituição continuará defendendo seus interesses e tentando, ao menos, mostrar com fatos quem na verdade é mais competente. A guerra continua!
|