Entrevista exclusiva com o guitarrista Kiko Loureiro, do Angra Por
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PARTE UM Era pra ser uma entrevista sobre algumas curiosidades, mas acabou virando algo muito mais legal: um bate papo leve e descontraído sobre a vida e carreira do guitarrista de maior expressão do nosso país: Kiko Loureiro. Esse nome fala por si só e dispensa maiores apresentações. Além de guitarrista do Angra, Loureiro ministra workshops em todo o mundo, dá aulas em renomadas escolas de música e ainda compõem para seus projetos na carreira solo. Mesmo com a agenda lotada, Kiko nos atendeu por telefone e conversamos sobre vários assuntos, entre eles: internet, arte, mercado, futebol, política, religião e - é claro - música. A entrevista foi dividida em duas partes, e a primeira você pode conferir agora: Personalidade e relação com os fãs Suelen: Como é a sua relação com os fãs, o fato de servir de modelo pras pessoas? Tentar corresponder às expectativas delas e às vezes não conseguir? Porque os fãs esperam às vezes coisas que estão muito acima da sua capacidade... Kiko: É muito difícil lidar com isso. Mas a gente vai aprendendo com o tempo. O problema é quando se conhece um fã numa oportunidade que se está tranqüilo, então dá pra conversar e a pessoa se sente próxima. Em outra oportunidade, quando se está com um monte de gente do lado, às vezes só dá pra falar um "oi" assim, mais ou menos, e naquela confusão às vezes nem dá pra falar nada. Eu não tenho essa capacidade de lembrar de todo mundo que eu conheço, no primeiro segundo. Então eu olho uma pessoa e penso: 'Putz... Eu conheço esse cara de algum lugar, mas não lembro'. E fica aquela confusão, a pessoa se sente super mal. Geralmente a pessoa é fã e fã é muito emotivo, ou gosta da gente ou odeia na hora. Muitas vezes não dá tempo de falar muito com a pessoa, mas eu tento fazer o máximo, mas o meu máximo, bem... Eu sou um cara bem fechado. E não vou ficar como um psicólogo, [risos] sei lá... É difícil mesmo. É difícil estar com um sorriso toda hora. Porque às vezes a gente encontra com a pessoa depois que viajou horas de carro, de ônibus. Chega no lugar no pique, faz o show, faz um monte de coisas e no final ficamos cansados, querendo ir embora, querendo ter uma vida particular também. S: É... Eu tento me colocar no seu lugar e acho que você leva de boa... K: Depende do dia. Às vezes dá pra levar bem, às vezes não. E ainda tem aquelas pessoas que estão torcendo pra que aconteça alguma coisa errada para que elas tenham motivo pra falar mal. Mas tem gente que entende e pensa: 'Pô, o cara está chato hoje... Tem que entender que o cara não tem que estar legal todo dia'. Mas tem gente que não entende. Se for olhar no Orkut sempre tem esse tipo de discussão: "Ah, o cara é legal; ah, o cara não é". É uma coisa estranha, porque no fundo, pra você que também é uma artista... S: Oôô... Quem dera! [risos] K: ...a arte tem que vir antes do artista. Hoje em dia podemos perceber que o artista está sempre antes da arte, podemos ver nas revistas que tem nas bancas. Está sempre em voga o cara, se ele é legal ou não, e fica em segundo plano se o que ele faz é bom ou não; se ele está com uma peça de teatro legal ou não, se ele está indo bem na novela ou não, se no disco novo ele está tocando bem a música ou não, se a música é boa ou não. É sempre a pessoa: se ele é legal ou não é, se ele é bonito ou feio, que roupa ele está usando, e fica nessa coisa. Orkut e Futebol S: Você tinha Orkut há um tempo atrás. Por que saiu? Eu estava olhando lá ontem [04 de Maio de 2006] e existem 143 comunidades com o tema Kiko Loureiro, viu? K: Pôxa é mesmo? S: Pois é. A comunidade oficial estava ontem com 13.700 membros! K: Nossa... Legal! [pausa] Me falaram que eu tinha que entrar no Orkut. Algumas pessoas falavam que era legal porque seria mais um meio de divulgação e que eu ia encontrar amigos antigos, aqueles papos. Aí eu tinha uma página com minha senha, era eu mesmo quem estava fazendo, mas não tinha nada no meu profile. Era só pra ver como que funcionava o negócio. S: Mas não tinha um perfil seu, com fotos, informações sobre você? K: Tinha foto. O perfil era bem básico. Eu também não queria colocar 'ah, eu sou isso, sou aquilo'. Eu não tava a fim de usar o Orkut pra fazer propaganda minha, não era a idéia. Eu só queria conhecer e ver se tinha alguma coisa legal pra falar -foi até o que aconteceu. As pessoas que cuidam das comunidades do Angra e do Kiko [moderadores] colocavam lá 'o cara lançou um disco', ou 'vai ter um show dia tal'. E acaba que muita gente vê o Orkut hoje porque isso tomou conta... Tomou as pessoas que antes freqüentavam fóruns. S: São praticamente as mesmas pessoas, né? K: É. As pessoas que se conheciam nos fóruns se encontraram lá. Hoje o Orkut virou um fórum gigante. Todo mundo acessa, todo mundo conversa de tudo. Falam bem, metem o pau. As pessoas ficam à vontade pra falar de tudo. S: Das comunidades que eu vi, a maioria eram positivas. Só vi oito delas falando mal. Quer dizer, nove, porque tem uma que é "Kiko Loureiro é Atleticano", que eu acho péssima [risos]. K: É... [risos] Uma vez eu ganhei a camisa do Galo e usei na Itália a camisa. Fizeram várias fotos daquele evento e essas fotos rodaram pra caramba, e aí parece que eu sou atleticano. Mas, pra infelicidade dos atleticanos, naquele mesmo dia, um italiano apaixonado por futebol me ofereceu uma camisa do Internazionale de Milão, de manga comprida, bonita pra caramba - e era do Ronaldinho - e eu troquei pela do Galo [risos]. Pros caras ficarem putos [risos]... Então essa camiseta está com algum italiano que eu nem me lembro direito quem era [mais risos]. E eu estou com uma super bonita do Internazionale. S: Foi uma troca justa. [risos] K: Pô... Sai ganhando, né? Não pelo time em si, mas a camiseta era gringa, de manga comprida e tal... Me desculpa quem me deu a camiseta do Galo, mas qualquer um teria feito o mesmo. Aqui a gente compra a do Galo a qualquer hora. [pausa] Mas eu não vou comprar! [risos] Se for pra gastar dinheiro com camiseta de time, eu vou comprar a do Tricolor! [risos] Inclusive eu fui no jogo quarta-feira pra ver o Palmeiras perder... E tamos aí... Campeões da Libertadores em breve! [risos] S: Ai, ai... Homens... [risos] Você é muito fã de futebol? Assiste muito? K: Ah, não muito. Mas eu fui lá no campo. Pra ver é legal! Vou de vez em quando, quando dá pra ir. Esse dia deu e foi legal. [pausa] Então, voltando ao assunto: mas aí quando eu entrava no Orkut tinha as pessoas pedindo pra autorizar 'sim ou não'... S: E devia ter umas quinze mil quando você entrava, né? K: Pois é. Tinha uma lista que ficava carregando um tempão até entrar a fotinha de todo mundo. Infelizmente eu não tinha muito tempo. Algumas pessoas amigas, gente que eu trabalho e um pessoal mais próximo que também tem Orkut, pediam pra autorizar. Tinha também os fãs que depois viram amigos que também pediam pra autorizar. Acontecia que eu não autorizava ninguém porque a página era enorme e eu não tinha tempo de procurar a carinha de quem eu conhecia, e eu não ia autorizar todo mundo. S: Então você saiu mais por inviabilidade mesmo? K: É. Eu encontrava com as pessoas depois e elas falavam: 'Putz, você não me adicionou' [risos]. Em vez de ser uma coisa legal, acabou virando uma coisa ruim. Então eu contei isso pra uma amiga do sul, ela é bem Orkuteira, [risos] e ela falou que podia ficar dando 'sim' pra mim [mais risos]. Só que encheu até mil amigos, porque ela adicionava todo mundo! Eu tinha falado que podia botar toda a galera, tudo que é fã podia adicionar. Todo mundo que tiver a cara, a foto da pessoa, porque tem uns que põem desenho e eu não queria. Aí ela foi adicionando até dar os mil (que são os possíveis) e ela falou que eu tinha que fazer outro, um profile "Kiko II". Eu falei 'Ah... Pára com isso, chega!' [risos]. E cancelei a conta. Infelizmente, com a vida que levo, eu tenho que ter certas prioridades. E essa comunidade dos 13 mil.. O Gui [Gui Knoxville - Profile] fez e já estava bem movimentada. Ele me escreveu pedindo pra ser a oficial e eu falei pra mudar um pouquinho o texto da apresentação e pra implantar certas políticas. S: Ele modera direitinho. Não deixa certas coisas, tipo pirataria... K: Exato. Eu falei pra ele que era sem pirataria e sem muita baixaria, nada que fosse pra esse lado. Queria que fosse um lugar legal pra falar do que interessa e que colocasse aquelas comunidades... [pausa] sabe aquelas que ficam ali? S: As relacionadas? K: Isso! As relacionadas sem aquelas coisas nada a ver: "Eu amo o Chaves" [risos], sei lá... Se você olhar, tem a do Angra e a do Mozart Melo, que o Gui gosta e que foi meu professor. S: Tem a do Rafa [Rafael Bittencourt] também. K: Exatamente. Tem a do Rafael. Só as que têm a ver mesmo. Angra, metrossexualismo e mercado. S: Eu já ouvi comentários de que de uns tempos pra cá o Angra tem dado muita importância à aparência, desde a imagem da marca 'Angra' até mesmo ao visual dos músicos. Isso é uma questão mais mercadológica, pra atingir um público específico? Saiu até aquela reportagem na Veja, não lembro se foi em 2003/04, com o título "Metal Metrossexual" [Edição 1880, de 17/11/04 - procure no site da revista: www.veja.com.br]. K: Ah vai. Não foi por causa do Angra a matéria... S: Mas vocês eram personagens também. Foram entrevistados. Tinha até uma foto de vocês num salão de beleza [risos]. K: Ah... [pausa] Eu acho que não. Comparado assim, com o Angra do início? Você acha? S: Acho que sim. Concordo com o repórter [Sérgio Martins, Marco Pinto]. K: Eu acho que não. S: Eu não gosto da Veja porque ela não é nem um pouco imparcial. Mas até achei muito engraçado, o repórter falando que vocês compram roupas em lojas pra gays, que vão toda semana ao salão cuidar dos cabelos [risos]. K: O quê? O cara da matéria? S: É, uai. O repórter escreveu isso na matéria. Eu tenho essa revista em algum lugar aqui em casa. K: Ah, mas aquilo lá o cara foi sacana. Isso não reflete a realidade. O cara falou do reduto gay de roupas, mas ele quis ser irônico. Porque se você vai numa loja de moda, uma loja de roupas de marca, o cara que te atende é gay, pô. Se você for cortar o cabelo - e eu corto o cabelo uma vez por ano, e olhe lá - a probabilidade do cara ser gay ou ter um jeitinho meio "assim" é enorme... S: [risos e mais risos] K: Aqui em SP tem uma galeria que tem uma série de lojas que vendem roupas legais, dessas roupas que os VJs da MTV usam. Muitas vezes é o próprio estilista que atende e o cara é meio estranho, "assim"... Ou então quem atende são aqueles caras cheios de piercings e tatuagens. Agora, o cara sabendo disso [o jornalista] - e a Veja é uma merda -, ele precisou dar uma apimentada no negócio, ele precisava dar um contraste. Ele precisava falar que o Heavy Metal compra em loja gay. Porque ele deu como exemplo o cara do Metallica também [Kirk Hammet], tinha até foto dele. Eu fiz uma entrevista com esse repórter e ele comentou "mas isso não é de hoje, né?". [pausa] Você quer mais metrossexual que o Kiss ou o Led Zeppelin, o cara com calça jeans justinha... Ser bonitinho ou desleixado no palco é uma coisa que vem secundária à música. Mas é claro, qualquer pessoa, até a mais enganada do mundo, começa a ver que as fotos dela estão nas revistas, e que ela está sempre saindo na TV, e acaba pensando: "Essa camiseta não é legal, vou comprar uma nova" ou "Nossa, olha minha cara... Da próxima vez eu vou lavar o cabelo pra ir lá fazer aquelas fotos". É uma preocupação normal. Igualzinho o Angra sempre foi, não mudou muito, não. S: Você falou desse lance de a arte vir antes do artista e que a imagem do artista deve ser secundária à arte que ele faz. Mas o que você acha, por exemplo, do Edu [Falaschi] que lançou uma linha de óculos de sol? K: Isso é uma tendência do mercado. O cara assinar uma linha de óculos, isso é normal. O Ronaldinho, por exemplo, joga muito futebol e tem uma linha de chiclete com o nome dele. Funciona assim: um fabricante produz camisetas, por exemplo, na China. E lá na China ele faz camisetas para o mundo inteiro. Pra vender aquela camiseta, a fábrica vai colocar um estilista pra desenhar a roupa ou vai dar pra um músico usá-la sempre. Isso se chama "agregar valor", no Marketing. E aí a fábrica vai colocar o nome do cara na camiseta, ou bolar algum treco pra cobrar R$ 100 numa camiseta que custa R$ 5 na China. O mundo inteiro gira assim. As pessoas têm que perceber que é assim que funciona ou então mudam o mundo. É a mesma coisa com a guitarra [endorsee]. Só que a guitarra você está usando. Mas é o mesmo conceito dos óculos. O cara está usando os óculos, daí o cara da indústria pede: "Posso colocar teu nome nos meus óculos? Porque o meu público tem a ver com o seu". Então, na hora que o cara entrar numa loja com trezentos óculos, o cara vai olhar pra aquele também. É uma questão de mercado. Não perca a parte dois dessa super entrevista dia 18 de Julho! Postar sobre esta notícia no Fórum | Veja as mensagens deste assunto no Fórum Cadastre-se no Fórum (não é obrigatório para o mural de mensagens)
| | Autor: Suelen Pessoa | |  | Suelen é uma menina legal, que viu no Metal Clube uma forma de unir duas de suas paixões: Metal e Fotografia. Estuda Publicidade e Propaganda, na Puc, atualmente trabalha em meio período como fotógrafa-estagiária-assistente-monitora-júnior, é colaboradora honorária de coisas mil, pretensa poeta, cartomante falida e quiromancista nas horas vagas. Luta Kung Fu e Boxe, mas não é muito brava, não. De resto, metal na veia, porque nos deixa fortões. | |
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